Exército de um homem só

Existem dois tipos de pessoas em mim: o que eu sou e o que acho que sou. As vezes me pergunto até que ponto o que eu acho que sou realmente é o que eu de fato sou, inutilmente, uma vez que qualquer conclusão que eu chegar será apenas o que eu acho que é, e não necessariamente o que de fato é.

A questão em si é que não há quem me conheça de fato - cada um tem sua própria impressão baseado em experiências e diálogos que tenhamos tido. Desta forma, nem eu nem ninguém realmente me conhece, e por mais que eu afirme com plena convicção ser alguma coisa, a afirmação relativiza-se de acordo com o olhar do receptor.

É como tirar uma foto e revê-la anos mais tarde sob o olhar crítico e insatisfeito. “Eu era assim? Céus, me olhava no espelho e me achava tão mais legal…”. Os outros, por sua vez, não viam nem o reflexo do espelho, nem a gravura, mas sim uma perspectiva própria e única.

O resultado, então, é essa busca incessante pelo infindável auto-conhecimento, pra tentar, nem que de longe, entender o que sou. Vai que assim passo a fazer o mínimo de sentido?

Te deixei um monte de bilhetes

”- Tu não pode parar de viver por que uma te magoou”, é o que tu me diz, mas tu não me explica, tu não me ensina, tu não sabe como é viver sob a impotência do inconsciente. Que posso eu fazer para combater os sonhos que revivem todos os sentimentos e me atacam religiosamente ao adormecer, ou a música com a melodia a qual ouvíamos juntos que insiste em tocar nos meus fones de ouvido, ou sequer a naturalidade com que nenhuma outra pessoa consegue instigar em mim o que aquela instigou? Tu não sabe, tu nunca viveu, eu também não sei, mas vivo - convivo - com isso todo dia, toda hora, todo instante, há 2, 5, 6, 12 meses, 1 ano e meio, 2 anos, alguns dias, uma vida, eu nem sei mais. Perdi a noção de como e quando era minha vida antes, antes daquele cheiro, antes daquele olhar, daquela porção de minúcias que mais tarde me faria lembrar dela no mais simples trejeito semelhante em outrem, perdi também a noção do que é relativo à vida, uma vez que desaprendi a viver a minha em plenitude por ter deixado a maior fração dela pra trás, lá naquela cidadela distante.

É inconsciente a associação do sorriso dela a qualquer sorriso bonito, o rosto dela a qualquer rosto que me agrade, o nome dela a tudo que remeter a perfeição, e a taxa constante de infelicidade alardeando meu interior por simplesmente não tê-la mais comigo. Também não é de minha escolha simplesmente não conseguir mais me apaixonar – é apenas o resultado do meu conceito de amar, que consiste em estar perdidamente apaixonado por apenas uma única e exclusiva pessoa.

A única coisa que eu aprendi a fazer em todo esse tempo foi simplesmente esconder o que de fato sinto, disfarçar esse pranto com os pingos da chuva e agir como um verdadeiro ator fingindo alegria quando tudo ao redor ruína. Queria eu esquecê-la, seguir em frente, tocar a banda. Queria eu. Mas tu não me ensina.

Ainda que eu estivesse sóbrio.

Estavam tão fixamente perplexos na imensidão dos reflexos das pupilas um do outro, que nada lhes fazia desviar o olhar, por mais que tentassem e, afirmo, tentaram bastante, mas simplesmente não parecia haver brecha alguma naquele labirinto que tanto os intrigava. Tomavam vinho português e fumavam cigarro de algum país da Europa que realmente não lhes importava, afinal, nada de fato importava, além dos olhos um do outro distorcidos detrás daquela fumaça. Vez ou outra professavam algumas palavras desconcertadas, sem sentido, simplesmente jogadas no ar para quebrar o silêncio monótono que lhes soava como uma sinfonia dando um toque magistral aos instantes. A noite já caíra há tanto que o sol já ameaçava nascer, os meros espectadores que rondavam a mesa vez ou outra iam se retirando para casa, resultando no instante em que apenas os dois, ali, perplexos e perdidos, restaram no imenso salão. Sussurros lhes assoviavam ao pé do ouvido que era hora de partir, de terminar aquela aventura por hora e, quem sabe, marcar outro dia para ver se a mágica ainda estava lá, se não era apenas o efeito do vinho mas sim um sentimento nobre e diferente de qualquer coisa que já haviam sentido até então, mas simplesmente não havia um que possuísse a coragem necessária para professar o término da viagem. Ele, por fim, tocou-lhe a mão e ela sentiu até a mais fina pelugem se agitar no topo de sua pele, transformando agora o espetáculo não só em áudio-visual, como também numa experiência sensitiva de proporções nunca antes experimentadas. Ele fazia todo o peso que ela carregava nas costas simplesmente desaparecer, todas as preocupações, inseguranças e até mesmo a amargura que ela fazia questão de esconder nos cantos mais obscuros da consciência sumir. Isso a assustava, a expunha de forma preocupante, afinal, quem era aquele estranho que ela acabara de conhecer e sem motivo algum a fazia ter reações tão intensas? Não havia no entanto força alguma restando em seus músculos para que ela se defendesse, da mesma forma que não havia vontade alguma em fazê-lo. Ela se entregou de tal forma que não conseguia mais sequer imaginar como era estar livre novamente. Se entregou ou ele a raptou? Não sabia, não conseguia discernir um do outro, não conseguia sequer completar um raciocínio, estava tão perdida quanto se pode estar. Levantar parecia difícil, andar, impossível, ir embora… nem queria pensar. Tudo o que conseguia fazer era ficar ali sentada, olhando-o fixamente nos olhos e pensando no que é que ele deveria estar pensando. Mal sabia ela que ele pensava exatamente tudo que ela estava a pensar.

Eu sou como o dinheiro.

Em constante movimento, passando de mão em mão nas frustrantes tentativas das pessoas de obterem felicidade, embora sejam elas as infelizes, não eu. Posso proporcionar livros, filmes, ingressos, passagens – tudo. Mas nenhuma dessas mentiras esconde o vazio dentro de cada um de nós. Nós, eu também. Sou uma nota falsa, mas de valor tão ínfimo que passo imperceptível. Apenas me levam adiante, sem se importarem. Vivem suas mentiras, eu as alimento, sendo eu mesmo apenas mais uma delas.

A soma de tantas mentiras e a colisão com a eminente realidade gera a crise. A minha, a tua, a do mundo - e essa é de verdade.

Duas doses.

Devo dizer que não é fácil conter essa palpitante vontade de te ter perto a mim, essa constante necessidade de não desviar o pensamento de ti um único instante, por mais simplório que seja. Lembrar o teu nome já acelera a frequência do meu coração. Associar uma imagem, um cheiro, um som a ti - nem se fala. Perco a atenção de seja lá o que for que estivesse fazendo. Essas bobas simplicidades são mais do que suficientes para instigar essa ardência no peito, essa leve tontura ao fechar os olhos, esse peso recaindo sobre as pálpebras e os ombros que se transforma em vontade de dormir só pra sonhar contigo.

Esse tipo de coisa anima a vida, sabe, poder ter alguém em quem pensar antes, durante e depois de dormir, e acreditar fielmente que esse alguém é o único causador do amanhecer. Instiga até no mais subjulgado ser uma vontade de levantar nesse dia ensolarado e se esforçar pra ser uma pessoa menos pior. Por que, melhor, só se fosse ao teu lado. Por hora, há de se contentar com menos pior.

Por outro lado, dói. Tudo, uma hora ou outra, vai doer. É como quando você é criança e fica doente. É bom, por faltar a aula, mas, uma hora ou outra, a mãe leva ao médico e sabíamos que tomaríamos uma injeção. O pior não é a dor - afinal, nem dói tanto. Mas a incerteza. A expectativa. A necessidade de aproveitar ao máximo o instante de felicidade, e a certeza de que jamais aproveitaremos nada enquanto nos forçarmos a aproveitá-lo. E aí, quando se menos espera, vem a injeção.

Sorte é que tem aquelas excessões, aquelas doenças que se curam com dois comprimidos ao dia. E, por hora, é isso que preciso de você - duas doses, uma de ti, e uma de nós, o tempo todo.

metamorfose constante do imutável.

Pode parecer que me ponho na posição de apaixonado com demasiada frequência, mas em mim o tempo percorre numa velocidade a qual difere do relógio. Se para os demais apenas dias passaram-se, o mesmo me perdura meses. Sou genuinamente prematuro, minha superfície é verde feito fruta jovem, mas o interior amargo como maçã fora da validade.

o que restou de nós

Eis que um dia éramos “eu e tu”, que por acasos do destino tornamo-nos “nós”, e por descaso da parte dominante, viemos a tornar-nos um novo “tu” e “o que restou de nós”.

Só afirmo com plena convicção e certeza que nós nos amamos muito. Amamos, que pode estar no passado ou no presente, dependendo do que tu determinar. Se algum dia tu pensar que sou digno de ter-te perto de mim novamente, se pensares que o presente não lhe agrada como um dia lhe agradou ou se quiseres reviver um instante ao meu lado, não hesites. Tu sabes meu email e endereço. Jamais me absteria de dar-te esta chance, principalmente por ser tudo que anseio há tanto, tanto tempo.

Hoje, eu sou o que restou de nós

Emagreci esses dias. Mas, por algum motivo, tenho me sentido extremamente mais pesado. Os acertos são leves, se desprendem com facilidade inigualável. Os erros, no entanto, são um fardo pesado que nos mantém estagnados. E desses eu tenho de sobra.

Emagreci esses dias. Mas, por algum motivo, tenho me sentido extremamente mais pesado. Os acertos são leves, se desprendem com facilidade inigualável. Os erros, no entanto, são um fardo pesado que nos mantém estagnados. E desses eu tenho de sobra.

O impossível é sempre mais bonito.

Tenho ânsia por querer me livrar desse sentimento palpitante, dessa ansiedade inexplicável e desse eterno enjôo mental que a tua recusa me causa. Tenho necessidade de lembrar que o mundo ainda gira sem ti, e que a aurora do amanhecer é bonita mesmo quando tu não parece ser o motivo dela existir. Tenho, por fim, que fechar os olhos e não mais te enxergar cravada  em minhas pálpebras.

máscara

Eu queria tocar o rosto perdido detrás desse material inexpressivo que esconde tua face. Eu quero te conhecer de verdade, ir além desse resquício de personalidade que tu disponibiliza para transeuntes ocasionais. Quero resgatar no fundo desses teus olhos castanhos o brilho incólume que essa seda ralhada esmorece. Quero te chamar pra dançar e fazer com que todos te olhem enquanto me acompanha no ritmo desse bolero. E quero que tu me diga qualquer coisa, o que quer que tu desejes dizer pra mim. Contanto que prove que não me ama e não quer me ter ao teu lado pela eternidade. Instiga, convença. Quero que tu me faça triste. E também quero que tu falhe em tudo isso.

Tira essa tua máscara que tu és demasiado perfeita pra privar o mundo de ver-te, e vem te mostrar ao meu lado, que eu te acompanho pra onde fores. O que eu quero, na verdade, é ter o mundo só pra pô-lo ao teu dispor.